"Aquilo por que vivi"

17 nov

Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o
anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento
da humanidade. Tais paixões, como grandes vendavais, impeliram-me para aqui
e acolá, em curso, instável, por sobre o profundo oceano de angústia, chegando
às raias do desespero.

Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase – um êxtase tão grande
que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas
dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão –
essa solidão terrível através da qual nossa trêmula percepção observa, além dos
limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque
vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que
os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa
parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que – afinal – encontrei.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração
dos homens. Gostaria de saber por que cintilam as estrelas. E procurei apreen-
der a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos
acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.

Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto,
rumo ao céu. Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de
dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opres-
sores, velhos desvalidos a construir um fardo para seus filhos, e todo o mundo de
solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria ser a vida
humana. Anseio por avaliar o mal, mas não posso, e também sofro.

Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de
bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade.

(Bertrand Russel, Autobiografia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967.)

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Uma resposta to “"Aquilo por que vivi"”

  1. Rubens 17 de novembro de 2005 às 12:47 #

    Princesa!
    Bertrand Russel é um gênio… um filósofo sensacional… sempre fui fã dele, e já um livro dele, o “ABC da Relatividade”… conheço mais o pensamento dele na filosofia da ciencia, mas esse texto é ótimo…

    Me identifiquei muito com isso… e vejo muito de vc nesse texto tb, especialmente com relação ao seu amor e bondade para com as pessoas…

    Bjinhos….

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